O verão é realmente uma estação tentadora. Você passa o ano inteiro esperando ansioso para que chegue logo o verão e você possa passar aquela temporada tão cobiçada na praia! E quando finalmente chega, é só curtição! Afinal o que poderia acontecer de ruim num período reservado ao descanso e ao lazer? É claro que você precisa se manter esperto. Primeiro guarda tudo aquilo que irá precisar! Depois de algum esforço consegue encaixar as seis mochilas, cinco travesseiros, uma prancha de surf, uma bicicleta, uma TV velha, três cadeiras de praia, um guarda-sol, você, sua esposa, seus três filhos, seu cunhado e sua sogra no seu pequeno carro esporte. O engraçado é que as estatísticas comprovam que, em uma viagem dessas, você acaba não usando pelo menos dois terços do que você normalmente leva... (a sogra e o cunhado estão entre esses dois terços).
Depois de guardado (sabe-se lá como) tudo isso em seu pequeno carro você têm mais uma missão perniciosa. Escolher bem o horário em que deve pegar a estrada para não pegar muito movimento. O curioso é que, independente de qual horário escolher sempre parece que todo mundo escolheu o mesmo horário que você e uma viagem que normalmente duraria duas horas acaba se tornando uma longa jornada de cinco horas. Sua mulher pede para ir ao banheiro de quarenta em quarenta minutos. Sua sogra critica o seu jeito na direção. Seu cunhado ronca com o rosto colado no vidro da janela. E seus três filhos fazem a maior bagunça no banco de trás.
Mas para que se estressar? É verão!
Finalmente, você consegue chegar até a casa na praia. É quando todo mundo sai do carro e corre para casa e você vê que vai ser a única pessoa a levar toda a bagagem para dentro. Começa a sentir um certo ar de conspiração entre seus parentes... mas ora, que bobagem, eles me adoram!
Normalmente, depois de descarregar tudo, aturar a briga das crianças pelos quartos e ouvir a reclamação da sogra de que sua cama é dura demais e range, você pode se dedicar a uma tarefa mais relaxante: sintonizar a TV! É claro que os avanços de seu progresso se tornam visíveis quando depois de três horas você consegue captar a Globo com a imagem tremendo e alguns chiados.
Bom... quem precisa de TV não é mesmo?
Afinal de contas a praia é local para se divertir e, portanto, chega a hora de vocês darem uma visitinha ao litoral afinal o dia promete! É quando você descobre que sua sogra (que já passou dos oitenta quilos) insiste em usar biquíni. Bom... é claro que a visão não é das melhores mas não é realmente isso que importa no momento. Todos embarcam novamente no carro (afinal a casa de praia que você alugou fica a dois quilômetros do mar). E lá chegando todos param na faixa branca de areia e contemplam felizes o mar!
O que vocês não contemplam é que logo acima de suas cabeças as nuvens estão se fechando e logo conseguimos ouvir um trovão. Bom, não podemos controlar o tempo. Resignados voltam ao carro e é então que você percebe que os tapetinhos vão ficar imundos de areia. Ao retornar para casa, você descobre que aquele seu chinelo azul que havia usado mais cedo havia sumido misteriosamente. Bom, logo irá aparecer... você pensa enquanto observa uma verdadeira tempestade cair da janelinha de sua casa de praia.
É nessa hora que você se pergunta: o que fazer na praia em momentos de chuva? Bom a resposta é clássica! Mas é também nessa hora que você descobre que sua mulher se esqueceu de trazer o baralho, o dominó, o tabuleiro de damas e até o banco imobiliário. Porém, você não consegue compreender porque ela trouxe quatro pares de sapatos diferentes!
É... que falta faz a TV!
Bom, à noite finalmente a chuva para e o seu cunhado dá a idéia de darem um passeio pelo centro daquela pacata cidade litorânea... Finalmente essa criatura deu uma idéia que preste é o que você pensa e, novamente, (eu sei... acaba se tornando repetitivo) vocês embarcam no carro e decidem dar uma volta pelo centro. São 40 minutos com uma sensação terrível nos ouvidos tentando arranjar um lugar pra estacionar. Se pergunta porque há tantos carros aquela noite e logo percebe que há uma banda amadora tocando na praça central da cidade. É aí que você percebe que aquela sensação terrível nos ouvidos era a música.
Vocês decidem parar para jantar num desses estabelecimentos na avenida principal e pede ao garçom um pastel de queijo. Meia hora depois o garçom retorna, entrega os pedidos de todos os seus familiares, menos o seu. Você educado lembra ao garçom sobre seu pequeno lapso de memória. Ele pede desculpas e, antes de retornar a cozinha, insiste que isso não irá voltar a se repetir. Mais meia hora depois o seu pastel chega, frio, e, ao dar a primeira dentada descobre que ele não é de queijo e sim de camarão! Você pensa em chamar o garçom novamente mas pensa melhor, afinal para que se estressar? É verão. Decide comer o seu pastel de camarão frio em silêncio e, na hora de pagar a conta, todas as esperanças de que seu cunhado iria rachar com você caem por terra desaparecem ao ver que ele sumiu misteriosamente. Logo, retorna aquela sensação de que todos estão conspirando contra você... ora, mas que bobagem! Você encontra o resto de seus familiares na esquina mais próxima e, ao se encaminhar para eles acaba pisando em uma poça de água da chuva mais cedo. Bom, um pouco de água não faz mal a ninguém!
No outro dia logo cedo você espera em vão a chegada do jornal que você assina na cidade e decidiu transferir o local de entrega enquanto permanece na praia. Mas já são onze da manhã... e nada! Intrigado, você olha para o lado do jardim e descobre que o seu vizinho de praia está sentado em uma cadeira lendo um jornal, o mesmo jornal que você assina. Percebe também que ele está usando um chinelo igual ao que você deu falta ontem à tardinha. Bom, como são estranhas as coincidências. O vizinho olha para você e sorri. Você, educado, responde com outro sorriso, e volta para dentro da casa. Como as pessoas se tornam simpáticas no verão!
O almoço não é dos melhores... Você leva a sua família para um antigo restaurante. A comida está fria, existem algumas moscas por aí, e você teve uma nítida impressão de ver algo boiando no feijão que lembrava vagamente um cabelo humano. A conta custou os olhos da cara mas dessa vez pelo menos você não se decepciona com o seu cunhado. Ele compra chicletes para todo mundo, um para cada um. É... ele não era tão pão-duro quanto parecera a princípio.
E a tarde vocês decidem novamente voltar à praia. Dessa vez o céu está azul e sem nenhuma nuvem. Nada poderia estar tão perfeito. Depois de uns audaciosos vinte minutos você consegue fincar o guarda-sol na areia (acreditem, ajustar o guarda-sol é uma ciência que exige técnica!) Você então decide tomar um banho de mar. A água está congelante mas é sempre assim no início... depois de uns quize minutos e de ser derrubado pelas ondas umas sete vezes você se convence que o dia hoje está melhor para ficar na areia. Retornando ao seu guarda-sol acaba levando uma bolada na cara do seu cunhado que estava jogando com seu filho mais velho. Você não se importa realmente afinal esportes são saudáveis e seu cunhado se mostrara uma pessoa até generosa.
Quando volta para o guarda-sol a sua sogra insinua que gostaria de comer um milho verde. Logo, toda a família faz coro e lá vai você para a cabana mais próxima comprar nada menos que sete milhos verdes. Quando prepara para se retornar descobre que o seu tão precioso guarda-sol havia voado com uma rajada do vento. Correndo que nem um louco, consegue alcançá-lo pois, que sorte, ele caiu bem encima do castelinho de areia que seus dois filhos menores estavam construindo. Voltando com o guarda-sol e com seus dois filhos chorando e berrando terrivelmente... ao chegar nas cadeiras percebe que sua mulher está mais adiante, alheia a tudo, conversando com um salva-vidas loiro e musculoso... gostou de ver que ela estava aproveitando a estadia para criar novas amizades!
Quando retornam para casa descobrem que o cachorro do seu vizinho sorridente defecou bem no seu portão. Bom, para que culpar o pobre do animalzinho inocente? Ao entrarem em casa, você acaba por ser o último com a possibilidade de tomar banho e, quando chega a sua vez, a água misteriosamente falta. No mesmo momento você percebe que foi o único a quem aquele milho não fez bem e quando finalmente você consegue sair do banheiro tenta dar um abraço na sua esposa mas ela se esquiva. Ao olhar mais de perto percebe que ela está toda vermelha e queimada do sol. Você havia se esquecido de comprar o protetor solar.
Cansado, você decide retornar! Depois de muitos minutos suados tentando colocar tudo no carro novamente, vocês partem para a cidade grande. Passa meia hora trancado no pedágio em que você tenta desesperadamente sintonizar alguma coisa no rádio. Quando decide partir para os CDs descobre que o único que você tem no porta-luvas está arranhado a partir da faixa número dois. Quando finalmente consegue passar do pedágio, sua mente começa a se ocupar em se lembrar onde deixara aqueles chinelos e que iria ligar reclamando para a sede do jornal. Alguns quilômetros mais adiante o carro pifa e é nessas horas que você percebe que não entende nada de mecânica. Sem dizer mais nada aos seus parentes, tira o cinto de segurança, abre a porta do carro, sai, e se senta no acostamento da estrada.
Realmente... o verão é uma estação doce!
sábado, 15 de janeiro de 2011
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